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Herberto Helder | Se Houvesse Degraus na Terra... | Projeto Voz Lírica



Projeto "Voz Lírica" - dos alunos de Licenciatura Plena em Letras/espanhol da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
Recitado pela discente: Fabiana Esteves
Disciplina: Tradições Líricas da Literatura portuguesa
Orientador: Antony Cardoso Bezerra



"Se Houvesse Degraus na Terra..."

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

terça-feira, 10 de junho de 2014
Publicado por Unknown

Cesário Verde | Desastre | Projeto Voz Lírica




Projeto "Voz Lírica" - dos alunos de Licenciatura Plena em Letras/espanhol da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
Recitado pelo docente: Antony Cardoso Bezerra
Disciplina: Tradições Líricas da Literatura portuguesa
Orientador: Antony Cardoso Bezerra



"Desastre"

Ele ia numa maca, em ânsias, contrafeito, 
Soltando fundos ais e trêmulos queixumes; 
Caíra dum andaime e dera com o peito, 
Pesada e secamente, em cima duns tapumes. 

A brisa que balouça as árvores das praças, 
Como uma mãe erguia ao leito os cortinados, 
E dentro eu divisei o ungido das desgraças, 
Trazendo em sangue negro os membros ensopados. 

Um preto, que sustinha o peso dum varal, 
Chorava ao murmurar-lhe: "Homem não desfaleça!" 
E um lenço esfarrapado em volta da cabeça, 
Talvez lhe aumentasse a febre cerebral. 

....................................................................... 

Findara honrosamente. As lutas, afinal, 
Deixavam repousar essa criança escrava, 
E a gente da província, atônita, exclamava: 
"Que providências! Deus! Lá vai para o hospital!" 

Por onde o morto passa há grupos, murmurinhos; 
Mornas essências vêm duma perfumaria, 
E cheira a peixe frito um armazém de vinhos, 
Numa travessa escura em que não entra o dia! 

Um fidalgote brada e duas prostitutas: 
"Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!" 
Bisonhos, devagar, passeiam uns recrutas 
E conta-se o que foi na loja dum barbeiro. 

Era enjeitado, o pobre. E, para não morrer, 
De bagas de suor tinha uma vida cheia; 
Levava a um quarto andar cochos de cal e areia, 
Não conhecera os pais, nem aprendera a ler. 

....................................................................... 

O mísero a doença, as privações cruéis 
Soubera repelir - ataques desumanos! 
Chamavam-lhe garoto! E apenas com seis anos 
Andara a apregoar diários de dez-réis. 

Anoitecera então. O féretro sinistro 
Cruzou com um coupé seguido dum correio, 
E um democrata disse: "Aonde irás, ministro! 
Comprar um eleitor? Adormecer num seio"? 

E eu tive uma suspeita. Aquele cavalheiro, 
- Conservador, que esmaga o povo com impostos -, 
Mandava arremessar - que gozo! estar solteiro! - 
Os filhos naturais à roda dos expostos...


terça-feira, 3 de junho de 2014
Publicado por Unknown

António Nobre | O Teu Retrato | Projeto Voz Lírica



Projeto "Voz Lírica" - dos alunos de Licenciatura Plena em Letras/espanhol da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
Recitado pela discente: Amanda Bioni
Disciplina: Tradições Líricas da Literatura portuguesa
Orientador: Antony Cardoso Bezerra


"O Teu Retrato"

Deus fez a noite com o teu olhar,
Deus fez as ondas com os teus cabelos;
com a tua coragem fez castelos
Que pôs, como defesa, à beira-mar.

Com um sorriso teu, fez o luar
(Que é sorriso de noite, ao viandante)
E eu que andava pelo mundo, errante,
Já não ando perdido em alto mar!

Do céu de Portugal fez a tua alma!
E ao ver-te sempre assim, tão pura e calma,
Da minha noite, eu fiz a claridade!

Ó meu anjo de luz e de esperança,
Será em ti afinal que descansa
O triste fim da minha mocidade!


terça-feira, 27 de maio de 2014
Publicado por Unknown

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